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O «telefone sem fios» do Voltone del Podestà

Duas pessoas, dois cantos opostos, uma coluna para sussurrar. Sob o Palazzo del Podestà a voz atravessa a abóbada. Explicamos como se faz e o que ver enquanto isso.

5 de novembro de 2026

O Palazzo del Podestà e a Torre dell’Arengo iluminados à noite na Piazza Maggiore

Se no centro de Bolonha virem duas pessoas paradas em cantos opostos de um cruzamento coberto, com a cara virada para uma coluna como crianças a contar às escondidas, não se preocupem. Não estão mal dispostas nem de castigo. Estão ao telefone. Sem telefone.

Estamos sob o Voltone del Podestà, a grande passagem abobadada entre a Piazza Maggiore e a piazza del Nettuno. Os bolonheses chamam a este jogo telefono senza fili, o «telefone sem fios». Nos nossos três segredos de Bolonha dedicámos-lhe só umas linhas. Merece mais.

Como se faz

São precisas duas pessoas. Cada uma escolhe um canto do Voltone, na diagonal em relação à outra, e fica virada para a coluna. Depois fala-se baixinho, quase num sussurro, para a pedra. Do outro lado, a vários metros de distância e com gente a passar no meio, a voz chega nítida, como se o amigo estivesse mesmo ao lado.

O truque está todo na arquitetura. Dos quatro cantos partem grandes nervuras que sobem e se encontram no centro da abóbada. A voz, em vez de se perder no ar, segue as superfícies curvas e desliza até ao canto oposto. Os físicos chamam-lhe «galeria dos sussurros»: com a forma certa, acontece também sob outras abóbadas e cúpulas. Mas esta é a nossa, e é de graça.

Confissões à distância

Todo o segredo bolonhês que se preze tem a sua lenda, e este não é exceção. Conta-se que a abóbada servia para confessar os leprosos: o doente num canto, o padre no canto oposto, e a distância de segurança garantida pela física. Bonita história. Se é verdade, porém, ninguém sabe: admite-o até a Bologna Welcome, o posto de turismo da cidade. Nós contamo-la pelo que é, uma lenda.

Um cruzamento com oitocentos anos

O palácio que têm por cima da cabeça é o Palazzo del Podestà, construído no início do século XIII como primeira sede do governo da cidade. Aqui trabalhavam o podestà, o principal magistrado da comuna, e os seus juízes e notários. Ao nível da rua, duas vias cruzam-se e passam por baixo do edifício: é o Voltone. Ao lado, em meados do século XIII, nasceu o Palazzo Re Enzo, e hoje os dois formam um único conjunto.

Nem sempre foi um lugar de sussurros. Debaixo destas abóbadas havia o mercado, com o seu vaivém de vendedores e clientes, e havia as bancas dos notários. Aqui expunham-se no pelourinho os blasfemos, para que todos os vissem, e aqui se executavam também as condenações à morte por enforcamento. Sussurros, nem pensar.

No piso de cima fica o Salone del Podestà, que ao longo dos séculos foi sala de tribunal, teatro público e até campo de jogo de bola. A fachada que veem da praça foi refeita no Renascimento: reparem no rés-do-chão, coberto de placas decoradas com motivos florais. Diz-se que não há duas iguais. Contá-las fica por vossa conta.

Os quatro santos

Enquanto esperam que o amigo do outro canto pare de rir, levantem os olhos. No Voltone observam-vos quatro estátuas: são os santos padroeiros de Bolonha, Petrónio, Próculo, Domingos e Francisco. São de terracota e foram modeladas no século XVI por Alfonso Lombardi, um escultor que deixou muitas obras na cidade. Ouviram séculos de segredos. Nunca contaram nenhum.

O «campanazzo»

Mais acima ainda, sobre o Voltone, ergue-se a Torre dell’Arengo. No início do século XIII era pouco mais do que um alteamento sobre o cruzamento das duas vias; só mais tarde se tornou torre, depois de obras de reforço. Nunca foi um modelo de solidez: fundações pouco profundas, paredes finas na base. E, no entanto, está ali há séculos, apoiada precisamente nos arcos debaixo dos quais estão a sussurrar. Melhor não pensar muito nisso.

Lá em cima está o campanone, a que chamam campanazzo, o «sino grande»: 4700 quilos de bronze, levados até lá acima em 1453 por Aristotele Fioravanti. Durante séculos chamou os bolonheses a reunir-se. A 21 de abril de 1945 tocou pela libertação da cidade, e todos os anos, a 21 de abril, volta a tocar para a recordar. Debaixo da mesma torre convivem, afinal, a voz mais forte de Bolonha e a mais baixinha.

Como experimentar. Vão a dois, ponham-se nos cantos em diagonal e falem baixinho, com a boca perto da coluna. Com menos barulho à volta, de manhã cedo ou à noite, é mais fácil. O Voltone é um lugar de passagem: deixem espaço a quem caminha. E se alguém no canto oposto já vos estiver a sussurrar alguma coisa, como se diz em dialeto, convém stèr in uràccia: estar alerta.

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